on the fucking road…
… pela Amèrica do Sul com o Livro Nomade*1. Em trânsito, em transe, entrando em contato com os dramas e crises da periferia do capitalismo mundial integrado. Uma senhora de oitenta anos, fumante compulsiva e aventureira me dá uma chipa de queijo como apoio cultural, um sinal de sorte. Sim, eles também têm bananas mas chamam de pacová. Ben Hur, Ben Hur*2 em rodoviárias que são meu lar… uma gata grávida lambe as garras antes de sair voando com uma bica, índias guaranis vendem artesanato com imagens de padroeiros da igreja e los chicos engracham sapatos. Acà en Paraguai encontro ainda frescas as mem[orias sangrentas de la ditadura. Violência politica, a perseguicao e a história da eliminação de opositores que enfrentaram autoridades policiais e que se posicionaram contra a existência de instituições repressivas que até hoje funcionam muito bem obrigada. Contudo hay quem trabalhe pela busca da verdade através da memória histórica. Hay quem queira justica para as vitimas da ditadura encabeçada por Alfredo Stroessner entre 1954 e 1989*3. Hay quem acredite na importância de difundir valores sustentados pelo povo paraguaio e latinoamericano em sua luta contra o Terrorismo de Estado, sobretudo através de formas alternativas de comunicação e expressão artística.
Fuerza hermanos jà que todos sabemos o quanto é dificil condenar nossos algozes e generais. NO reforma agrária, YES contrabando. Na ponte da amizade mp3 è o que nao falta, e salve a Efigênia, santa que deveria ser canonizada. Aqui é mais barato encher a cara. Pelo preço de uma, se toma duas, só que a garrafa é gorda pacas. Domigo, não muda quase nada. Na mesa cerveza, na TV futebol. E yo, cansada, cansada, cansada de tanta hipocrisia*4 No busão uma tia puxa papo, conta que tem uma grande amiga “de cor” mas de coração branco! Aviso que com uma frase dessas, em terra tupiniquim ela poderia ir presa por discriminacão racial e o escambau a quatro. Ela dá de ombros e insiste que adora o Brasil e seu povo hospitaleiro, “tanto que por muitos anos sò assistia o Silvio Santos“. Aff! Na porta da esperança quem espera sempre cansa. Tio Sam, no melhor estilo pink e cèrebro, demarcando território com suas multinacionais onipresentes e sem fronteiras. Coca, cola. Se vende em aqui, ali, em qualquer lugar. Dólar, Euro, Real. Cambios, ex-change. Alguém se irrita e tenta levantar a necessidade de inventarmos uma moeda ùnica para o Cone Sul. Todos concordam e fica combinado que ninguém vai fazer nada. Economia solidária, energia solar, bom, ótimo! Mas antes vamos esperar o mundo acabar. O trombadinha disse que não tá nem ai para a queda das bolsas, se cair ele pega mas vai continuar batendo carteira mesmo que é mais jogo.
Você sonha em constituir um casamento heterossexual bem sucedido e levar seus filhos para passear no shopping? Você acha que pode conseguir manter-se num emprego medíocre para pagar vinte anos de prestação de um apê, depois aposentar-se e jogar dominó com outros aposentados na orla de alguna playa? Sente alivio quando entra no orkut e vê mais de duas mil pessoas fazendo parte de uma comunidade de Jovens Conservadores de Extrema Direita que não apoiam coisas consideradas “normais” hoje em dia? Você lê Veja e se considera uma pessoa bem informada? Você duvida que alguém pode dar um tiro na sua cara?
Recomendações: evite namorar psicopatas. Evite mandar assassinar terapeutas. Evite suicidar-se nos trilhos do metro. Não confunda cocaína com kundaline. Não compartilhe seringas. Não trepe sem camisinha. Conserve seu medo*5 Incentive a coleta seletiva de lixo. Não rasgue cartas com juras de amor. Tenha uma dieta balanceada e compre iogurte especial para conseguir cagar religiosamente no mesmo horário todas as manhas. Seja socialmente (in)útil. Vire o canudo. Dirija bẼbado mas não esqueça de andar com o suborno do policial. Não dê esmolas, faça doações a entidades de sua confiança e que já tenham experiência em administrar o caixa 2. Procure no google fotos das flores que nasceram no rio Tietê. Respire. Sinta o ar entrando suavemente pelos pulmões. Sinta uma energia de cor púrpura regenerando cada célula do seu corpo. Acredite na diversidade como base para a construção de uma cultura de paz. Redes de supermercados e lojas de (in) conveniências são iguais em qualquer não-lugar*6 do mundo. Abra os olhos e, antes de tentar acordar sonâmbulos e romper cortinas de silêncio, compre uma máscara de oxigênio.

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